🇧🇷 Bacurau (2019) 🌕🌕🌕🌕🌕
- Bruno Santiago
- 29 de ago. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 30 de set. de 2019

Dirigido por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho
Bacurau já não foi selecionado para representar o Brasil na corrida do Oscar 2020. Isso é uma pena tremenda, mas não tira todos os seus méritos. Esse é um filmaço nacional que pode facilmente figurar entre os meus filmes brasileiros preferidos. A salada de gêneros pendendo pro lado B da força cinematográfica é precisamente o que eu mais gosto.
Independente de gostos pessoais, Bacurau serve quase como a nossa versão de Mad Max: Fury Road, se você trocar toda a ação desenfreada por momentos genuínos de suspense que se prolongam o máximo que podem, chegando no perfeito limite de tensão. Todas as cenas tensas aqui são milimetricamente bem desenhadas. A trilha sonora ajuda? Muito. Mas não é só isso. A calma que a direção mostra no crescente desses momentos dá uma aula de como fazer um filme autoral e não sacal. Se tem um paradoxo que Bacurau consegue atingir é o de ser um filme lento e ao mesmo tempo extremamente vidrante. Poucos conseguem entregar um produto tão complexo nesse aspecto.
Para os que acham ou esperam um filme mais cabeça, coisa que Kleber Mendonça Filho já tinha feito antes com Aquarius e principalmente O Som Ao Redor, esqueça isso. A história é muito direta ao ponto. É preto no branco. E sem muita firula. Vamos entendendo a trama aos poucos, tudo no seu tempo. No final, nenhuma ponta fica solta. E talvez a maior questão que paire no ar, inclusive com uma pergunta da própria personagem da maravilhosa Sonia Braga: "por que vocês estão fazendo isso?" é respondida com uma imagem que passa na TV em "segundo plano" em determinada cena. Só isso consegue contextualizar tudo e se conecta diretamente com a primeira frase do filme, "Daqui a algum tempo...".
Apesar de ser um filme fácil em termos narrativos ele passa uma mensagem extremamente atual. Os diretores falaram em entrevista que não queriam transmitir mensagem nenhuma. Será que não mesmo? É gritante o nível de veracidade com os tempos atuais em que vivemos, trabalhado aqui em uma grande e violenta metáfora. A xenofobia, o colonialismo e principalmente a resistência são o grande mote desse roteiro. Eles pontuam muito bem, através de poucas falas e olhares, que a resposta violenta resultando num banho de sangue (coisa que eu amo e é feita aqui no ponto exato) foi a única solução encontrada, e nunca uma opção. Bacurau fala de um futuro distópico representado pelo micro ao invés do macro. E um micro muitas vezes esquecido pela população das grandes cidades. É muito bonito ver tamanha empatia que os criadores dessa história possuem com aquela cidade, que por sua vez é a protagonista do filme. Não temos um personagem central. Tudo gira em torno daquela pequena comunidade.
Com um roteiro minuciosamente escrito, sabendo dosar tudo que os westerns e os filmes de gênero fizeram pelo cinema, Bacurau mostra inspirações que vão desde o passado e passam pelo moderno cinema saudosista de Tarantino. Estranhamente podemos colocar esse filme e Us, de Jordan Peele, também desse ano, no mesmo saco, onde o resultado final é uma grande homenagem aos filmes B de época, com uma compreensão enorme sobre suspense, e toda uma camada a mais de comentários políticos e sociais por debaixo, sem nunca atingirem um senso partidário que poderia soar como uma arrogância.
Bacurau pode parecer distante da nossa realidade cosmopolita mas se mostra muito além do que aparentemente se propôs, e serve assim como um belíssimo exemplo de cinema denúncia disfarçado de entretenimento. Ou vice-versa. Até porque quando o filme quer te divertir, ele consegue. O gore (para quem gosta), as piadas muito bem escritas e para os personagens certos, a trilha sonora original que homenageia o mestre dos mestres, John Carpenter, os movimentos de câmera estilizados e até algumas referências a ficções científicas dos anos 50. É lindo de ver. Ainda mais quando bem feito através de uma equipe que tem na palma das mãos o entendimento do que esta criando com todos os detalhes necessários para trazer o maior nível de realidade possível.
Como carro chefe a gente vê um elenco super inspirado e que entende o que é atuação para cinema, comandado por dois diretores que também possuem esse entendimento. Ao meu ver, um dos maiores problemas com o cinema nacional é justamente esse. Existe um certo vício nas atuações novelescas que atrapalha muito na hora de contar uma história fora da TV. Cinema é outra coisa. É para ser realista. O mais naturalista possível. Senão a imersão do público é dificultada e a impressão que fica é que estamos vendo atores lendo ou lembrando do texto decorado. Cria-se uma parede entre expectador e ator. Parede essa que funciona a favor do teatro e das novelas. Mas cinema é outra linguagem. Nem a figuração em Bacurau cai nesse problema. Que sirva de exemplo para os próximos realizadores que tentem ousar como aqui.
Bacurau é cinema. É cinema nacional. E já foi reconhecido lá fora com o prêmio do Juri em Cannes. Só falta ser reconhecido aqui. Talvez onde mais precise desse reconhecimento. São tempos sombrios para o cinema brasileiro. Bacurau é a resistência que a gente precisa.
Assistam na semana de estreia (de hoje até quinta que vem).




É muito bom saber que o cinema nacional mostra sinais de poder prometer e COMEÇAR a entregar de verdade!