🇱🇧 Capharnaüm (2018) 🌕🌕🌕🌕🌗
- Bruno Santiago
- 26 de fev. de 2019
- 3 min de leitura

Dirigido por Nadine Labaki
Eu nunca gostei muito do estigma que alguns filmes recebem de glamourizar questões sociais que são sérias e tristes. Nesse caso, a miséria. Cafarnaum só não recebe uma nota máxima por mim por isso, me contradizendo um pouco. Mas não se engane pois esse é um filmaço.
Entendo mas não concordo 100% com esse conceito, enxergo por outro viés, o de ser necessária a exploração máxima do tema para que a "porrada seja bem dada". Mas Cafarnaum, em seus primeiros 40 minutos, muito sutilmente, entra nesse campo de exagero narrativo. Rola uma tentativa escancarada de te emocionar através da trilha sonora e de momentos contemplativos do sofrimento do protagonista. Mas conforme o filme anda entendemos que é exatamente esse o foco e era isso que a diretora queria extrair dessa história. Então relevamos e entramos de cabeça nessa realidade pesadíssima.
Basicamente o filme fala sobre um menino de 12 anos (aproximadamente pois ele não foi registrado ao nascer) que resolve processar seus pais por terem o colocado no mundo. O filme intercala, em poucos momentos, o passado com o presente. Esse presente são cenas rápidas de tribunal, somente para nos preparar para o que está por vir. 95% do filme se passa em tempo real ao acompanharmos a jornada desse garoto em um momento decisivo de sua vida.
A miséria aqui é sentida em sua mais completa e cruel forma. Não existe um ser humano que não se choque ou sinta-se minimamente incomodado com aquilo que é mostrado e depois, mesmo que inconscientemente, não faça uma auto análise sobre alguns valores morais. A palavra gratidão nunca teve um sentido tão forte após a sessão. O tom documental, da câmera na mão, ali, presente e dentro da vida do menino Zain, ajudam a criar essa empatia máxima pela história dessa criança. É quase uma denúncia, apesar de ser uma ficção, pois não destoa muito da realidade.
O ator mirim carrega o filme nas costas. É simplesmente surreal o que ele faz em cena. E de pensar que ele não tem preparo algum de ator. Era um menino comum (com uma história de vida não muito distante da do personagem) que a diretora achou. E que achado! Zain (seu nome na vida real também) diz tanto com o olhar, mas tanto, que bota Glenn Close, em The Wife, no chinelo. O sofrimento que ele carrega consigo, a dor e a compreensão quase adulta do que acontece com ele, o desespero que ele demonstra com lágrimas que parecem reais em situações extremas, e a total descrença que ele mostra com os lindos olhos azuis nos momentos finais. Tudo isso é construído de um jeito impecável. É uma atuação mais complexa e completa do que a de Jacob Tremblay em O Quarto de Jack, por exemplo. Sem contar que os breves momentos que arrancam risadas do público vem acompanhados de lágrimas, pois sentimos que além de tudo, ainda há esperanças para esse personagem. Seu jeito grosseiro e raivoso, como uma autodefesa que ele aprendeu com a vida, diverte e nos deixa mal por estarmos achando graça. Uma criança não deveria ser assim.
Todo o elenco do filme serve de apoio para Zain e entregam performances super carregadas de mágoas e dores. Todos foram abandonados pela sociedade. Ninguém é culpado, por mais raiva que possamos sentir dos personagens dos pais, por exemplo. A maneira como os destinos se encontram e se desencontram nos parecem reais demais para ser um filme. O roteiro acerta em cheio nesse naturalismo intencional, por saber conduzir direitinho o expectador em suas emoções e reações. É, sem dúvidas, um filme para chorar e chorar e chorar nos seus minutos finais. O monólogo do protagonista em off no final do filme é algo que parte o coração de uma forma que só Shoplifters fez comigo no ano de 2018. Acompanhado da linda cena congelada que termina o filme. Assombra e aquece. Abraça com dor.
Cafarnaum é um filme sujo em termos visuais e também de conteúdo. É o cinema servindo como espaço para debates sociais. Necessário para todo mundo. Pesa, bem de leve, a mão no melodrama mas afinal de contas, aquela realidade é pesada por si só. Todos devem assistir. Sempre que lembro desse filme, a primeira fala que me vem em mente é quando ele diz para a mãe, após tudo que passou: "o meu coração dói".




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